Projeto Software Livre Brasil

http://espanol.softwarelivre.org/articles/44 Versão: 1.0 - 01/Jul/2001

Livres de Bill Gates - Marcelo Branco

(Marcelo D'Elia Branco)


Artigo escrito por Marcelo D'Elia Branco, membro do PSL-Brasil e PSL-RS.

O Raper Gaúcho - Mário Pezão contagiou a platéia formada por hackers, profissionais de informática, estudantes universitários, pequenos e médios empresários e representantes do governo gaúcho que superlotaram os três auditórios do Campus central da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) nos dias 29, 30 e 31 de maio. Com esta energia e após acompanharem atentos a abertura oficial feita pelo Governador Olívio Dutra, iniciava, em Porto Alegre, o “Fórum Internacional Software Livre 2001”. Foram 2047 congressistas, 150 palestrantes, 36 horas de debates, 10 países , 21 estados da federação e 746 instituições presentes. Este encontro, na sua segunda edição, foi um marco na construção do movimento software livre internacional. O resultado alcançado pelo Fórum fortaleceu as premissas fundadoras deste movimento inspirado pelos conceitos de liberdade da “ Free Software Foundation”, aprofundou a construção de uma alternativa concreta que buscou inserir a questão tecnológica no contexto de um mundo com inclusão social e igualdade no acesso aos avanços tecnológicos. Também definimos este evento como mais uma marcha de protesto e busca de alternativas ao neoliberalismo na construção do Fórum Social Mundial 2002. "Os capitalistas e gerentes em seus ternos engomados acabaram por suprimir a presença dos barbudos com rabos de cavalo. É bom ver que no Rio Grande do Sul isto ainda não aconteceu e que as pessoas estão preocupadas com o impacto social do software livre" afirmou o dinamarquês Rasmus Lerdorf ao comparar o evento com outros realizados no mundo.

Kenneth Avery Coar é porta-voz do consórcio Apache, um programa de computador para armazenar páginas da Internet utilizado por mais de 65% dos provedores do mundo; Rasmus Lerdorf criador da linguagem de programação PHP (personal home page) utilizada em mais de 6 milhões de sites; Eva Brucherseifer, líder de um grupo de mulheres programadoras de software Livre - KDE Woman; Timothy Ney, executivo da Free Software Foundation (organização inspiradora de nosso movimento); representantes da NASA, UNESCO, de grupos de usuários do Brasil, México, Argentina, França, Cuba e Uruguai ; o cantor e compositor Lobão e até as Forças Armadas Brasileiras foram os principais destaques do evento. Todos enfatizaram as vantagens da liberdade de criação e expressão proporcionada pela dinâmica dos programas livres que estão se tornando, cada vez mais, uma alternativa frente aos programas das megas empresas de software como a Microsoft. Liberdade para utilizar, copiar, modificar, e redistribuir os programas modificados foram a tônica dos debates. Além disto, o Estado do Rio Grande do Sul, um ano após a criação do projeto pelo governo Gaúcho, já se transformou numa referência mundial na utilização e no desenvolvimento de soluções baseadas em software livre. O Rio Grande do Sul é o Oásis do software livre” afirmou Tim Ney na abertura do evento.

Internacionalismo “ciberproletário” e uma nova forma de produção

Os principais líderes e sujeitos políticos do movimento são os “hackers”, hábeis programadores que se destacam por terem desenvolvido um programa importante ou uma ferramenta muito útil para o movimento. Os mais conhecidos são Richard Stallman principal liderança do movimento e Linus Torvalds, que escreveu o Kernel (núcleo) do sistema operacional GNU/Linux. Estes ciberproletários” que infernizam a vida de Bill Gates, trabalham de forma voluntária e são responsáveis por mais de 80% dos milhares de programas livres utilizados no mundo. As razões que levam um hacker a desenvolver de forma voluntária são as mais variadas: busca da notoriedade, reconhecimento, desejo de criar algo útil, indignação com o Bill Gates, insônia... ou todas elas juntas. Menos de 20% dos programas livres são desenvolvidos por programadores que atuam em empresas com estruturas convencionais. O trabalho sem chefe, sem patrão, sem jornada rígida, prazeiroso e criativo tem se mostrado mais eficiente e produtivo do que o trabalho assalariado “alienado” comprovando, pelo menos neste caso, uma das teses de Marx. Outra razão para a ótima qualidade dos produtos é o desenvolvimento colaborativo. Desde a concepção do projeto do software, e durante todas as etapas de produção uma equipe de colaboradores espalhadas ao redor do planeta participa de forma muito ativa através da Internet. Toda documentação e os códigos são disponibilizados, sem segredos e garantem um desenvolvimento durante 24 horas e 7 dias por semana. Outra característica importante é que os produtos mesmo inacabados, incompletos, nas versões preliminares são entregues aos “grupos de usuários” para avaliação. Nestes GU's participam além de programadores uma maioria de profissionais de outras áreas do conhecimento, que detectam os “bugs” (falhas), sugerem modificações e solicitam novas funcionalidades. Desta forma, o produto é melhorado continuamente. “Não são produtos de mercado que depois de prontos buscam encontrar consumidores. São produtos que buscam ser úteis à comunidade, feitos sob encomenda para atender a necessidades já existentes”, afirma Mário Teza, membro da coordenação do Projeto Software Livre RS. É por esta razão, que quase não existem produtos concorrentes. “Se desenvolvemos algum produto que supera o anterior, todos hackers se voltam para melhorar este novo produto abandonando o anterior, não desperdiçamos nossos esforços” destaca Teza. Outra lição importante a tirarmos deste movimento foi a criação das distribuições. Para furar o bloqueio na distribuição destes softwares foram criadas várias distribuições internacionais que são responsáveis pelo “empacotamento” de um conjunto de programas gravados em CD's, dos manuais de instruções, e prestam serviços de suporte aos usuários. São elas que colocam as “caixinhas” nas lojas facilitando a vida dos usuários e evitando que fiquemos horas “baixando” os programas pela Internet para “montar” o nosso computador. É uma forma de negócio no mundo do software livre, visto que vender a licença é proibido. As maiores distribuições são a SuSE (Alemanha), Slackware, Red Hat, Caldera, (Estados Unidos), Conectiva (Brasil), TurboLinux (Ásia)e Mandrake (França). Importante destacar que a maior delas não chega a ter 300 funcionários. Existe também uma distribuição que é a preferida pelos hackers - como Richard Stallman - pois não é uma empresa e sim uma entidade sem fins lucrativos: a DEBIAN.

Livre distribuição: identidade de Lobão e o Software Livre

Algumas práticas estão rompendo com a lógica estabelecida, usando a tecnologia de forma criativa para subverter os padrões de comportamento frente ao domínio dos monopólios. No painel “Caos Criativo”, tivemos o relato do professor Ronaldo Queiroz - UNICAMP que coordena um grupo de 14.000 colaboradores que socializam o conhecimento alimentando um banco de dados de consulta gratuita chamado de Dicas-L. Eduardo Maçan, professor do Colégio Bandeirantes - SP e hacker da DEBIAN, explicou o funcionamento do Napster, Gnutela e da FreeNet que possibilitam a comunicação e o compartilhamento de arquivos (textos, imagens e música) entre os usuários da rede, sem depender de uma única fonte geradora da informação, no caso o provedor. “A fonte da informação está distribuída em vários computadores espalhados na rede. Esta nova forma de distribuição do conhecimento não pode ser bloqueada. É à prova até dos advogados” ironizou Maçan. A distribuição livre do conhecimento foi defendida pelo cantor e compositor Lobão, durante o painel . O motivo dele estar participando do Fórum é a sua identificação com as idéias do Software Livre, que lida com a questão da propriedade intelectual - “uma luta pessoal”, segundo ele, “travada há vários anos” . Lobão relatou a experiência e estratégias adotadas por um artista que não se corrompeu para a indústria fonográfica, mantendo-se sempre independente e conseguindo alcançar o grande público com sua obra. “Informação e conhecimento não podem ser tratados como produtos de mercado e sim como um patrimônio universal da humanidade”. Lobão destacou a importância do debate para definir formas de garantir a distribuição do conhecimento com ética, principalmente na era da informação, da informática e da Internet, onde o desenvolvimento tecnológico é muito acelerado. A distribuição gratuita de qualquer tipo de conhecimento não é vista como fato negativo pelo músico. "Quem pratica mais pirataria, o camelô ou a indústria fonográfica? O maior mal é a pirataria oficial. Eu acho que a pirataria tem que ser tolerável pela sociedade", apontou ele. Na noite após o debate, a “galera” caiu no Rock, com Show “Lobão e Violão” onde o popstar apresentou uma retrospectiva de seus maiores sucessos.

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O que é Software Livre

São programas de computadores construídos de forma colaborativa via Internet por uma comunidade internacional de desenvolvedores independentes. São milhares de “hackers”, que negam sua associação com os “violadores de segurança”. “Isto é uma confusão por parte dos meios de comunicação de massa”, afirma Richard Stallmann, presidente da Free Software Foundation. Estes desenvolvedores de software se recusam a reconhecer o significado pejorativo do termo e continuam usando a palavra “hacker” para indicar “alguém que ama programar e que gosta de ser hábil e engenhoso”. Além disso, estes programas são entregues à comunidade com o código fonte aberto e disponível permite que a idéia original possa ser aperfeiçoada e devolvida novamente à comunidade. Nos programas convencionais, o código de programação é secreto e de propriedade da empresa que o desenvolveu, sendo quase impossível decifrar a programação. O que está em jogo é a independência tecnológica. Para Stallman, “software livre é uma questão de liberdade de expressão e não apenas uma relação econômica”. Hoje existem milhares de programas alternativos construídos desta forma e uma comunidade de usuários com mais de 20 milhões de membros no mundo.

Um software só pode ser considerado livre se proporcionar as quatro liberdades fundamentais:

  • liberdade para utilizar o programa, com qualquer propósito;
  • liberdade para modificar o programa e adaptá-lo às suas necessidades. (Para tornar esta liberdade efetiva, é necessário ter acesso ao código fonte, porque modificar um programa sem ter a fonte de código é difícil);
  • liberdade para redistribuir cópias, tanto grátis como com taxa; e,
  • liberdade para distribuir versões modificadas do programa, de tal modo que a comunidade possa beneficiar-se com as sua melhorias.

O exemplo mais conhecido de software que segue este conceito é o sistema operacional GNU/Linux, alternativo ao Windows, que é utilizado por quase metade dos provedores de Internet do mundo, pela NASA e pelo sistema de defesa norte-americano. Aqui no Brasil, o governo do estado do Rio Grande do Sul e as lojas Renner estão entre as instituições que já aderiram aos programas livres.

Projeto Software Livre RS (http://psl-rs.softwarelivre.org)

A construção de um programa alternativo ao neoliberalismo exige propostas concretas frente ao monopólio das megaempresas de software (como a Microsoft). As lutas desenvolvidas pela comunidade software livre internacional, liderada pela Free Software Foundation (www.fsf.org), têm sido encampadas e discutidas pelo Governo Gaúcho. Mesmo que tenhamos avançado em algumas experiências em prefeituras administradas pela esquerda no uso da tecnologia da informação como instrumentos da democratização de nossas gestões, trabalhamos sempre com tecnologias ditadas pelas grandes corporações, como se elas fossem neutras. Nunca investimos nossos esforços na construção de uma plataforma tecnológica que dominássemos, que não ficássemos limitados à “intencionalidade” dos programas de computadores construídos com a lógica do mercado.

O Projeto Software Livre RS é uma parceria do governo do estado do Rio Grande do Sul com instituições públicas e privadas do Estado. Tem como principal objetivo a promoção da independência tecnológica com o uso de softwares livres e a busca de uma alternativa econômica ao mundo de softwares proprietários, que têm ditado os parâmetros de custos e de desenvolvimento do setor em todo o mundo. Estimulando o uso de software livre, o projeto pretende investir na produção e qualificação do conhecimento local a partir de uma nova postura, que insere a questão tecnológica no contexto da construção do mundo com inclusão social e igualdade de acesso aos avanços tecnológicos. Essa iniciativa tem origem no alto volume de investimentos softwares proprietários exigidos do governo do Estado e na qualidade técnica e segurança garantida pelos usos de softwares livres. “Em 1998, último ano do governador Britto, foi gasto cerca de R$ 3 milhoes sómente em licenças do pacote de escritório Office da Microsoft, em 1999 início da gestão do Governador Olívio Dutra estes valores caíram para R$ 1,5 milhões, em 2000 para R$ 300,00 e em 2001 apenas R$ 80,00. Resultado este alcançado a apartir da utilização de software livre na administração” afirmou Marcos Mazoni Presidente da PROCERGS. Entre as iniciativas do Projeto Software Livre RS estão: a implantação de uma rede de laboratórios em empresas e universidades para o estudo do GNU/Linux e demais softwares livres; a estruturação de um curso para suporte da área; a criação de um consórcio editorial para publicação de livros, manuais, apostilas: e a realização de evento anual para a divulgação de softwares livres e a criação da cooperativa autogestiva de desenvolvedores do software.

Principais referências do movimento

Free Software Foundation

A Free Software Foundation (FSF) foi criada em 1981, a partir da experiência concreta de uma comunidade que compartilhava programas de computadores no laboratório do Massachusets Institute of Technology. Indignados por não terem conseguido o código de programação de uma impressora Xerox, que não funcionava bem, descobriram que os programas, até então compartilhados por programadores e instituições universitárias e públicas, passaram a ser um produto de “mercado” e que os códigos de programação, agora secretos, tinham sido apropriados por grandes multinacionais. A única saída seria construir programas alternativos, totalmente livres. Liderados por Richard Stallman, criaram os conceitos do movimento, as licenças públicas (GLP), o copyleft (esquerda autoral) e o projeto GNU em 1984. O objetivo da FSF é de eliminar a restrição de cópias, redistribuição e modificação de programas de computadores. Site: http://www.fsf.org.

Projeto GNU

A partir dos conceitos de liberdade da FSF foi lançado, em 1984, o manifesto e o projeto GNU. O projeto tem por objetivo o desenvolvimento de programas livres através de uma comunidade de colaboradores. Os códigos de programação, as dificuldades, as documentações e o conteúdo dos programas são disponibilizados em sites na Internet e através de listas de discussões específicas que garantem o seu desenvolvimento colaborativo e o aperfeiçoamento permanente. De lá para cá, já foram desenvolvidos milhares de programas totalmente livres. O mais conhecido é o sistema operacional GNU/LINUX. site:http://www.gnu.org.

Licença GLP

É a General Public License, uma licença que protege o direito de liberdade do software livre . Esta proteção dos direitos se dá através de dois passos; o copyright dos software; e a licença para copiar, distribuir e melhorar. O sistema operacional GNU-Linux é GLP. Site: http://www.gnu.org.

Copyleft (esquerda autoral)

Obedece a quatro princípios: a permissão de liberdade de cópia;a não contraposição ao copyright; o direito autoral é preservado; e é regulado conforme a licença. Não há legislação brasileira que possa enquadrar como pirataria o uso de software com esta licença.


        
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