Projeto Software Livre Brasil

http://espanol.softwarelivre.org/articles/49 Versão: 1.0 - 30/May/2003

Liberdade, justiça e ética: a revolução do Software Livre - Roberto Andrade

(Roberto Andrade)


Com uma brilhante analogia entre receitas de cozinha e programas de informática Richard Stallmann, idealizador e maior difusor do conceito de software livre, abre um dos mais instigantes documentários contemporâneos, chamado “The Code”.

Produzido por uma equipe de cineastas e jornalistas finlandeses, o filme detalha em 50 minutos de muita informação toda a evolução da indústria mundial de informática. Conta a história de Linus Torvalds, criador do Sistema Operacional Linux e descreve o trabalho do próprio Stallman, papa do Free Software. Revela ainda como espertalhões tipo Bill Gates registraram em seus nomes os direitos sobre códigos-fonte de trabalhos desenvolvidos em Universidades e Centros de Pesquisa e ficaram bilionários com seus softwares proprietários. E mostra a dedicação apaixonada de jovens e geniais programadores que, ainda garotos, formaram a base da cultura hacker, estiveram na origem da Internet, dos sistemas operacionais e da World Wild Web. Ao se rebelarem contra a idéia de sistemas operacionais e programas com códigos-fonte fechados, hackers e usuários do mundo inteiro criaram uma comunidade que mexeu em dois dos mais sólidos conceitos do capitalismo: economia de mercado e propriedade intelectual. E colaboraram muito para o surgimento da primeira versão do Linux, distribuída pela Internet em setembro de 1991. Linus Torvalds, então um tímido e introvertido estudante de Helsinki, com apenas 22 anos, havia criado a primeira pedra no sapato da poderosa Microsoft. Ele baseou seu sistema no Unix, desenvolvido nos laboratórios da AT&T em 1969. O Unix era originalmente um sistema operacional de acesso livre bastante popular nos meios universitários. Ao lançar gratuitamente o novo sistema na rede, Torvalds teve sua idéia imediatamente abraçada por uma gigantesca comunidade virtual, que passou a pesquisar e melhorar o sistema de forma permanente. Mas existia uma questão delicada para o grupo que desenvolveu o Linux: que licença de copyright usar para distribuí-lo? Linus Torvalds foi persuadido a lançar mundialmente o Sistema sob a licença GPL (General Public Licence), criada pela Free Software Foudation na década de 80. Esta licença determina que “quem mudar ou modificar um código-fonte deve colocar as mudanças ou melhorias à disposição de todos gratuitamente”. O Linux se desenvolveu rapidamente, mesmo com a Internet na época ainda não sendo utilizada em larga escala. O sistema de código-fonte aberto fez enorme sucesso nos meios acadêmicos e passou a ser motivo de pesquisa e permanentes evoluções entre hackers de todo planeta. Em 1994 Torvalds e uma equipe de mais de 200 desenvolvedores espalhados por diversos países chegaram à versão 1.0, primeira a ser lançada. O processo de funcionamento comercial do Linux parece e é bastante heterodoxo. Não há uma hierarquia industrial. Qualquer usuário de qualquer parte do mundo pode enviar sugestões para modificar o código-fonte e melhorar o sistema. Mas quem decide o que serve ou não é Linus Torvalds e sua equipe.Todo o universo de comunicação entre as partes é baseado na troca de e-mails. Os colaboradores mais próximos são Alan Cox, pirata informático e braço direito de Torvalds. Ted Tso, responsável pela difusão do Linux nos Estados Unidos. E Dave Miller, que foi expulso da Universidade da Pensilvânia por ter instalado o sistema Linux em um computador do laboratório de informática. Miller estuda as mudanças que os programadores propõem ao núcleo do sistema. E o mais interessante: atualmente, o responsável pelas modificações do Kernel estável do Linux –que já está na versão 2.4- é um brasileiro de 19 anos, chamado Marcelo Tosatti. Ele foi escolhido pessoalmente por Linus Torvalds e Alan Cox. Após 5 anos coordenando o Projeto Linux em Helsinki, Linus Torvalds foi trabalhar no Silicon Valley, na Califórnia, para a misteriosa empresa Transmeta, que durante anos se recusou a revelar sua atividade. O acordo comercial permitia que Linus continuasse desenvolvendo o Linux. Foi a aproximação definitiva de Torvalds com os maiores hackers e ativistas mundiais do Software Livre. Entre eles Richard Stallman, que abre o documentário “The Code” perguntando se qualquer um de nós acharia normal sermos presos e acusados de piratas por copiarmos a receita de um bolo para melhorá-la. Ou para fazermos o bolo ao nosso gosto. Richard Stallman era pesquisador do Massachussets Institute Of Technology até 1984, quando se demitiu para criar o GNU, um sistema operacional totalmente livre, também baseado na licença GPL e no Unix da AT&T. Queria que seu sistema fosse utilizado por todos, que pudesse ser copiado, modificado e distribuído livremente. Stallman é um defensor do livre acesso à informação e às evoluções tecnológicas, com sólidos princípios de justiça e ética. Na sua lógica, a liberdade é um conceito mais importante que o da gratuidade. No idioma inglês, a palavra “free” é ambígua, tendendo no ambiente comercial para o gratuito. Stallman é um poeta da tecnologia, compara o software livre às canções, poemas e histórias folclóricas, que vão sendo modificadas e melhoradas por gerações. Em 1991 faltava ao sistema GNU um componente fundamental que formaria o seu “núcleo”. No mesmo ano surgiu o Linux e Richard Stallman associou o núcleo do Linux ao seu sistema, o que o tornou operacional e executável em qualquer PC. A combinação GNU/Linux foi o começo de uma nova revolução tecnológica e comercial. Empresas, corporações e governos começaram a compreender que existia uma nova opção de sistema operacional “open source” para rodar em seus computadores. E que milhares de desenvolvedores estariam trabalhando todos os dias em todo o mundo pensando em como melhorar o sistema e como criar softwares para diferentes necessidades. Surgiram distribuidores, empresas e projetos com soluções para popularizar o Linux junto ao usuário comum. Muito mais que uma solução tecnológica, o sistema GNU/Linux representa uma enorme evolução no campo ideológico. Vejam os números revelados por Marcelo Branco, coordenador da ONG Software Livre RS e um dos mais respeitados especialistas no assunto. “O mercado brasileiro de informática paga U$ 1 bilhão por ano em “copyright” para a indústria de softwares. Este número é maior que o orçamento de um ano inteiro do Ministério de Ciência e Tecnologia. Apenas 10% da nossa população tem acesso à informática e 50% dos programas utilizados no Brasil são piratas”. A discussão da inclusão digital no Brasil passará, obrigatoriamente, pelo desenvolvimento de programas de computador com código aberto. E neste sentido o Brasil já detém uma posição de vanguarda mundial. Aqui, Poder Público, empresas, comunidade acadêmica e grupos organizados da sociedade vêem o software livre como um negócio justo e rentável. O Ministro da Casa Civil, José Dirceu, abriu a Reunião Interministerial do Comitê Executivo do Governo Eletrônico defendendo a intenção do governo federal de implementar um programa na área de Tecnologia de Informação e Comunicação que seja voltado à inclusão digital, à educação e à capacitação técnica e que possa ser "um ponto de partida efetivo para consolidar uma indústria de hardware e software que agregue valor à economia nacional, baseado em inovação constante e preferencialmente em softwares abertos e não-proprietários". Outro sintoma claro da força que este tema ganha no Brasil é a realização em Porto Alegre, nos dias 5, 6 e 7 de junho, do IV Fórum Internacional de Software Livre (www.softwarelivre.org/forum2003), onde são esperados mais de 3 mil participantes e 200 palestrantes do mundo inteiro. Entre eles o jovem Marcelo Tosatti, estrela brasileira do sistema Linux. De fato, free software é um conceito de liberdade, que envolve os interesses de cada cidadão e a soberania tecnológica dos países subdesenvolvidos. Aos magnatas da Microsoft e de outras fortunas voláteis este conceito, talvez, não faça muito sentido. Mas para o Brasil, que está em busca da construção plena da cidadania de seu povo, democratizar o acesso às tecnologias de ponta e desmontar o fosso da exclusão digital, são caminhos essenciais para a confirmação de um novo estágio de responsabilidade social.

Roberto Andrade Jornalista e produtor de Cinema e TV Sócio da Prisma www.prismacinetv.com.br


        
Palavras Chave: The code, ética,

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