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Artigos - Uma Comunidade - 57
 
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Uma Comunidade
Ricardo Rivaldo
Versão: 1.0

26/May/2004

A comunidade de software livre do Brasil, e porque não dizer, de boa parte do mundo, nos próximos dias estará novamente apontando para Porto Alegre, Brasil.

Iniciou hoje, 26 de maio de 2004, a 4 DEBCONF, Conferência Internacional dos Desenvolvedores Debian e em seguida, de 2 a 5 de junho, ocorrerá na capital do Rio Grande do Sul o V Fórum Internacional Software Livre.

Os dias passam voando, tantos assuntos a resolver em meio a outras atividades profissionais e pessoais, que às vezes falta tempo para refletir no significado de eventos que estão se desenrolando por obra do trabalho de tantos conhecidos e outros tantos que só conhecemos por contato eletrônico.

Este ano, mais uma vez, a comunidade brasileira que se dedica a produzir, pesquisar, aprender, ensinar, promover, usar e faturar com o software livre está de parabéns.

Um evento do porte do nosso Brasil e com a ousadia nascida e inspirada nos ventos de liberdade que sopram junto com o frio Minuano no pampa e serra gaúcha. Um evento que reúne nomes significativos do cenário mundial, incluidos ai todos os nossos compatriotas. Um evento que mostra que o Brasil está em condições de igualdade no mapa da vanguarda mundial pelo desenvolvimento de novas tecnologias e alternativas de desenvolvimento.

A falta de recursos e a natureza anárquica que caracterizam as grandes revoluções cobram seu preço na organização de um evento deste porte. Reunir uma comunidade tão heterogênea não é tarefa simples. Bem mais simples é tentar entender o que nos une, qual o ponto em que todos concordamos e que transforma um evento aparentemente técnico em algo que transcende classificações:

SOFTWARE LIVRE !!!

Livre, significa poder fazer escolhas. Sendo livre, defender uma opinião, significa respeitar a opinião dos outros, mesmo que esta esteja diametralmente oposta à que defendemos na nossa consciência.

A liberdade que defendemos, na sua mais direta expressão, traduz-se na possibilidade de disponibilizar para as pessoas de nossas relações aquilo que a humanidade produz de mais durável e precioso: o seu conhecimento.

Especificamente, a possibilidade de compartilharmos os códigos fontes que fazem os computadores funcionar sem que com isto sejamos considerados ilegais, piratas ou ladrões da propriedade alheia.

Conhecimento é o que cria a civilização e nos permite crescer além das limitações impostas pela natureza.

Sob este aspecto, o software livre é um ícone, um símbolo da luta pelo desenvolvimento da sociedade em direção a novas formas de produção e distribuição de riquezas.

Ao trabalhar com a premissa que todo o código fonte deve ser disponibilizado, o software livre assume o papel de avalizador das liberdades pessoais e econômicas dos agentes sociais.

Econômicas, pois o que muitos ainda não comprenderar e que ao invés de ser uma força destrutora de mercados e empresas, o software livre é a mola propulsora de uma nova economia, anunciada por tantos e sintetisada no famoso livro "A Terceira Onda", de Alvin Tofler, onde a produção e riqueza estão de tal forma permeando a sociedade que as barreiras caem, e uma nova forma de organização social pode emergir.

Mas além disto é um instrumento de garantias pessoais, contra a vigilância incansável das agências de governos e empresas manipuladoras de informação, ao garantir que o usuário pode saber exatamente qual o sistema que está processando seus dados e sendo assim pode defender seu direito a privacidade e escolha individual.

É difícil falar de comunidade sem pensar no que isto significa. As vésperas do maior acontecimento de software livre da América Latina, e que para nossa sorte já foi até citado como o maior do mundo , cabe aos organizadores chamar a discussão sobre qual o significado de termos sob o mesmo teto tantas visões diferentes de como chegar a um mesmo destino. Esta tão necessária reflexão, que deve trazer a tona todas às visões, deve ser um momento de união e consolidação de uma tendência, um momento de festa e celebração das diferenças que nos tornam indivíduos.

Uma comunidade tão heterogênea, indo dos que acreditam que a liberdade deve ser máxima, propagada na licença de uso através do mecanismo de copyleft, que obriga que os trabalhos derivados de um código fonte também sejam licenciados pelo mesmo mecanismo, isto é, com a obrigatoriedade de distribuir todos o código fonte deste trabalho derivado. Também temos os que acreditam que o importante é a forma como o processo decisório é conduzido, considerando isto suficiente para garantir a liberdade de seus usuários, como é o caso da comunidade Java. E aqueles intermediários, que utilizam a General Public License (GPL), mas não levam em consideração que a origem do seu trabalho pode ser questionada através de mecanismos de patentes e outros de defesa da propriedade do direito autoral (copyright), como é o caso do excelente projeto Mono.

Alguns de nós acreditam que não existe meio termo, e que todo o processo de defesa do software livre passa pela continua reavaliação e eliminação de códigos e programas que não se enquadram, ou que representam problemas no processo de licenciamento e controle de propriedade, geralmente tendo como base de comparação o trabalho da Free Software Fondation e sua General Public License (GPL). Outros acreditam no poder concedido a um gerente benevolente, o bom ditador, que toma para si a tarefa de determinar os rumos do projeto.

Em fim, tantas visões com um único propósito, o de libertar a sociedade da ditadura imposta pelo excessivo controle exercido pelas corporações e governo sobre a alma da nova sociedade da informação: O software.

Devemos todos, então, aproveitar a oportunidade e discutir meios de valorizar as nossas diferenças com o objetivo mutuo de construir um novo paradigma, mais justo, transparente e sob o controle dos cidadões, para esta tão poderosa ferramenta que é o software.

o que nos une

liberdade, cooperação, esperança,

cada um é uma multidão ao poder contar com o trabalho dos outros, e esta liberdade, que significa em ultima instância o sonho de solidariedade que move as pessoas em busca de um mundo melhor, é que devemos lutar juntos para preservar e consolidar.

Que o V Fórum Internacional Software Livre possa ser o veículo para este entendimento, e vitrine para todas as correntes e pensamentos, é o que desejamos e buscamos, como responsáveis por este evento tão grandioso, que mais uma vez mostra que o mundo é aquilo que fazemos dele e prova que o Brasil é sim o país onde estão as oportunidades.

Bem vindo a todos, juntem-se a nos, e vamos todos, consolidar este movimento, que só cresce.

Ricardo Rivaldo SoftwareLivre.org



 
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